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25/05/2012

Olhos e palavras

Isso já faz anos, e me veio à memória agora.

Um mendigo barbado e mal vestido, mas não lembro se cheirava mal. Desci do carro e entrei no banco para sacar uma quantia no fim do expediente de trabalho e o encontrei com algumas vassouras na mão, parado próximo à esquina da praça em frente. Vendia vassouras. Descansava por um momento antes de seguir sei lá para onde. Pediu um pouco da minha atenção. Relutei, numa primeira reação, então cedi à solicitação. Algo me dizia para eu ceder.

Começou a dissertar sobre a vida, a sua vida, de como chegou a ter uma família e uma casa grande, com carro, bom salário, tudo o que alguém gostaria de ter após algum esforço para se dar bem. Contou como perdeu todas as posses, incluindo os filhos e a esposa, de como teve de reaprender a viver do outro lado do prisma social, de arrumar um lugar minimamente decente para se sentir homem de novo. Ele falava bem, tinha estudo, boa formação. Mas tinha que vender vassouras por aí.

Não pediu para eu comprar vassouras. Não pediu esmolas. Só pediu para conversar.

No início olhei para o relógio pensando em quanto tempo aquilo duraria para então seguir meu caminho.

— E as crianças?

— Já estão grandes. Sei onde moram, mas não posso visitá-las.

Assenti em silêncio. Já tinha me esquecido do relógio àquela altura.

Pessoas passavam por nós e eu tinha a impressão de que não compreendiam o fato de um jovem bem-apresentável, de camisa e calça social e sapatos engraxados estar ali, conversando com um estranho de barba mal feita, cabelos meio desalinhados e olhos de alguém que viu e sentiu coisas demais por muito tempo, como se o assunto fosse estimulante. E o assunto era estimulante. No mínimo, digo de registro em uma pequena crônica.

— O que houve, afinal?

— Escolhas erradas. Achava que nada de ruim podia me acontecer. Ilusão de que tudo estava bem o tempo todo.

Não sabia mais dizer quem ajudava quem naquele momento, para ser honesto.

— Obrigado. Você deve ser uma boa pessoa, por se dispor a perder tempo com um sujeito como eu. Às vezes as pessoas só precisam de ouvidos por perto para se sentirem melhor.

— Não foi uma perda de tempo, senhor.

Ele agradeceu mais uma vez, levantou as vassouras da calçada e foi embora com uma mancha de sorriso escondido entre os pelos do rosto. Entrei no meu carro e vi que mais de vinte minutos haviam se passado. Não recordo o seu nome. O que me vem à mente é somente uma força que ele trazia nos olhos e nas palavras.

Quanto a ser uma boa pessoa, até hoje estou aprendendo. Mas fiquei com uma sensação estranha no peito.

Talvez felicidade.

21/05/2012

Luz baixa

Foi quando o monte de ripas de madeira caiu no chão, fez um barulho alto que assustou o pai que ia à frente. Foi quando elas caíram no chão que de repente pareceu ao filho que tudo devia ser de uma tristeza só no mundo. Esforço e suor e tristeza.

— Tu tá bem, moleque?

O pai veio rápido da frente da carroça para ver o que tinha acontecido com o pequeno, que mantinha uma mão sobre uma das coxas e havia largado o saco de tralhas que juntou pelo caminho. Disse que tudo bem, mas o pai não acreditou e tirou a mão do menino da coxa magra e viu que escorria um pouco de sangue.

— Eu te disse pra não andar perto demais da traseira da carroça, agora deu nisso.

— Pai, vamo logo chegar em casa, tá tudo bem.

— Amarra esse pano nessa ferida.

Era um pano sujo de graxa, barro e outras manchas escuras, porém era o único disponível para estancar o sangramento. Não era nada muito grave, foi um arranhão feito pela ponta de uma ripa, mas ardia debaixo daquele sol todo. O garoto ajudou o pai a carregar a madeira de volta para a carroça, depois recomeçaram a andar pela estrada. O pai fazia força, pendia o corpo para a frente, o filho olhava para os lados enquanto os carros passavam sobre o asfalto. O saco pendia nas costas baixas e ossudas do menino para lá e para cá, as tralhas se batendo lá dentro, acompanhando o ritmo numa percussão monótona.

— Pai.

O homem se vira rapidamente para trás para encarar o pequeno enquanto continuava a puxar a carroça. O moleque olhou nos olhos dele, e então achou que não queria falar nada. Fez sinal negativo com a cabeça e o pai voltou a encarar o chão à frente.

— Vai ter que lavar bem essa ferida, moleque. E tua mãe ainda vai brigar comigo por causa disso.

Era tudo suor naquela vida. Ia brincar com umas latas que guardou dentro do saco, fazer uns carrinhos com barbante velho, quem sabe um caminhão. Só assim para ter um carro.  O pai na carroça, ele nas latas. Tudo ardia naquela vida, tudo.

10/05/2012

Quanto vale um quilo

“Quanto vale um quilo de paixão?”
“Sei lá. Eu gosto de fígado acebolado.”

01/05/2012

Ciclo (meta)físico

bonsai morreu dourado na janela.

o calor.

a liberdade.

o que virá.

fertilizante a cristalizar na boca.

30/04/2012

Desgraça por desgraça

Voltando de carro do trabalho para casa, entro na Mariz e Barros e viro na Visconde de Inhaúma, pois era o caminho mais fácil.

Dei de cara com uma turba de curiosos, só aguardando o sangue espirrar de algum lugar. Na verdade, a primeira coisa que pensei foi em algum possível acidente, um atropelamento de crianças brincando na rua, o que não seria anormal.

Então vi que se tratava de um arranca-rabo básico entre vizinhas. Segunda coisa que pensei: uma encontrou o namorado/marido da outra na cama, chamou a amiga para ajudar a tirar satisfação, e daí você já pode imaginar o resto. Mas, claro, era só uma suposição e eu não queria ficar ali para confirmar.

Terceira coisa que pensei: aquilo parecia um Big Brother de pobres, pobres de espírito, de posses ou de ter mesmo o que fazer da vida, todo mundo querendo ficar perto da porrada para não perder detalhe algum. Toda vez que acontece uma tragédia, as pessoas se danam a acompanhar a merda inteira. Eu prefiro seguir em frente, não vejo qual é o próposito maior em se testemunhar a desgraça dos outros. Mas, claro, sou apenas eu.

Daí as duas que metiam porrada na terceira vieram para cima do carro, enquanto a multidão ria e gritava e dividia pipoca de microondas durante aquela diversão. Quarta coisa que pensei: puta merda. Juro que vi até mesmo uma criança pequena torcendo sei lá para quem na briga.

Enfim, as lutadoras se engalfinharam perto do carro, balançaram levemente o carro, temi que houvesse novos arranhões no carro, mas foi só. Os espectadores continuaram fazendo apostas e comemorando e gravando a miséria nos celulares. Cheguei à outra esquina.

Resolvi atravessar para o outro lado da Visconde, que naquele perímetro é dividida em duas vias por um córrego, parar em um mercadinho para comprar cerveja e pensar na vida e nas vicissitudes da podridão humana, ou algo que o valha.

Nem bem termino de separar a bebida no balcão, outra gritaria logo em frente. Um casal com uma moto discute aos gritos com um sujeito parado na esquina. Uma senhora bem idosa, talvez mãe do dito cujo, ameaça jogar um saco de lixo sobre a garota, que a desafia. O rapaz que dirige o veículo desiste da briga e chama a moça para irem embora, enquanto o outro berra Sua Puta! Sua Puta!

Alguém explica que a moto quase cai em cima do rapaz na esquina, porque o casal resolve acompanhar de longe a turba do arranca-rabo e não presta atenção por onde passa. O rapaz na esquina não teve dúvida e largou um tapa na cara da moça enquanto ela, gostosa porém cega como o namorado, quase causa um acidente. Tristeza.

Pago a cerveja e acho que é melhor chegar logo em casa, que não fica longe. Quinta coisa que pensei: desgraça por desgraça, que seja a dos outros. Dessa vez não estou sozinho, tenho certeza.

09/12/2011

Juliana, 9 anos, presidente

Hoje li que uma garota de 9 anos, cujo nome verdadeiro foi trocado por Juliana na reportagem por motivo de proteção à identidade da criança, quer ser presidente de seu país, a Colômbia, depois de fugir das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), que supostamente mataram seus tios e recrutaram à força seu pai.

Juliana fugiu escondida, com a ajuda de sua mãe, dentro de um saco de batatas, onde ficou por três dias até chegar a Bogotá para se refugiar na favela de Soacha, na periferia da cidade. Juliana tem tanto medo da situação das coisas em seu país que não sai mais à rua, porém ajuda nos serviços domésticos onde vive agora, enquanto sua mãe atualmente presta serviço como catadora de lixo e retira pregos de pedaços de madeira (acredito que os pregos sejam reaproveitados).

“Tenho muitos sonhos”, disse Juliana, como o de se tornar presidente para “acabar com os grupos armados ruins, que massacram a população, e deixar os grupos bons”. Uma garotinha, com medo de sair às ruas e encontrar pessoas estranhas para evitar que a sequestrem ou a matem, quer ser presidente de seu país para que algo dê certo por lá nesse sentido. Os adultos, há décadas, não possuem a mínima capacidade para consertar tamanho estrago sócio-político-econômico que as guerrilhas e os grupos paramilitares fazem por toda a Colômbia?

Para Juliana, com apenas 9 anos de idade, pelo visto, a resposta é bastante óbvia.

Milhares de outras pessoas sofrem diversos traumas por conta desta situação caótica, incluindo-se aí tortura e assassinato de parentes e amigos. Alguns outros casos são também explicitados na reportagem. Milhares destas vítimas se tornam “desplazadas”, que, como Juliana, são deslocados internos no país tentando escapar dos conflitos em diferentes locais. O que me faz lembrar o horror que ocorre há cerca de 20 anos na Somália, onde há mais de 350 mil pessoas refugiadas no campo de Dadaab, no país vizinho Quênia, sofrendo de superlotação, sede e fome. Estas não são desplazadas, porém são igualmente vítimas de uma guerra que não parece ter uma solução nem um fim próximo, arrastando-se por tanto tempo e, juntamente com ela, arrastando homens, mulheres e crianças a um muito provável inferno na terra.

A coordenadora da escola onde Juliana atualmente está disse que foi a própria quem abriu a porta de sua casa para que eles informassem a família sobre o começo das atividades escolares. Será que também abrirão a porta para Juliana quando ela decidir seguir seu maior sonho e tomar para si a responsabilidade de acabar com os grupos ruins?

Se eu pudesse votar por um mundo melhor e com mais esperança, votaria em Juliana.

05/12/2011

Carlos Maciel (“Carlos Cobain”)

Quero entender o que é boa música e o que não é para os empresários da indústria musical, especificamente falando de rock.

Carlos Maciel é de Porto, Portugal, e sua versão de uma música do Nirvana já foi acessada milhares de vezes pelo Youtube. Basta clicar aqui abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=qtc6gK9EbK0

Isso eu chamo de um PUTA TALENTO. No mínimo. Aqui uma entrevista com o próprio, também pelo Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=wK5NG6SDMLw

Quando vejo algo assim, fico emocionado de verdade. E me pergunto onde está a verdadeira noção de qualidade musical das pessoas, independentemente de qual seja o seu gênero musical preferido. Existe algo muito errado no que é bom e ruim, atualmente, por aí. Pelo menos em relação a música.

 

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